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Passear Contigo, Amar e Ser Feliz

5 dias em São Miguel - Em tempos de Pandemia

24.09.20 | André Maria

Bem-vindo a este longo texto sobre uma experiência de cinco dias em São Miguel, de 20 a 25/08/2020, em tempos de pandemia. Se não gostares muito de ler deixo-te já o resumo do nosso roteiro antes de avançar para a narrativa. Do resumo abaixo saliento que o primeiro dia praticamente não conta para inspiração "alheia" porque depende muito da hora a que se chega à ilha! Também incluo lugares que o Covid não nos deixou ir para que te possas inspirar, caso estejam disponíveis na tua eventual visita.

Dia 1

  • Tramites logísticos
  • Descobrir um pouco de Ponta Delgada
  • Almoçar na cidade
  • Percorrer os miradouros pela costa até à Ferraria

Dia 2

  • Ananases da Arruda
  • Ermida Senhora da Paz
  • Queijadas da Vila Franca - Morgado
  • Caldeiras da Lagoa das Furnas (Parque Grená)
  • Comer o Cozido do Tony’s das Furnas
  • Miradouro do Pico do Ferro
  • Caldeiras das Furnas
  • Praia do Fogo
  • Poça Dona Beija (covid não deixou)

Dia 3

  • Miradouro do Pico do Carvão
  • Piscina Natural da Ponta da Ferraria
  • Almoçar e descobrir as Sete Cidades
  • Miradouros até à Vista do Rei e Monte Palace
  • Miradouro da Grota do Inferno e Lagoa do Canário
  • Aproveitar a Costa de Mosteiros a Rabo de Peixe.

Dia 4

  • Lagoa do Congro
  • Parque Natural Ribeira de Caldeirões
  • Cascata do Salto da Farinha (poço azul)
  • Miradouros da Ponta do Sossego e Madrugada
  • Faial da Terra (Salto do Prego)
  • Miradouro Pico dos Bodes
  • Praia da Povoação
  • Lapas na Ponta do Garajau
  • Ver as estrelas no Pico do Ferro

Dia 5

  • Pico da Barrosã
  • Lagoa do Fogo
  • Caldeira Velha (Covid não deixou)
  • Salto do Cabrito
  • Comer o Bife da Associação
  • Lagoa de São Brás
  • Plantação e fábrica de chá Gorreana
  • Praia da Viola
  • Piscinas Naturais Calhetas da Maia
  • Comer no “O Pescador”

Nos açores com a nostalgia Madeirense

São Miguel é para já a única ilha que conhecemos nos Açores. Todavia, já eram muitas as pessoas que nos diziam que se a Madeira é fascinante assim que chegássemos a S. Miguel iriamos descobrir que afinal Portugal ainda tem beleza mais ímpar para oferecer. E efetivamente é verdade. Sentimos isso, não logo (porque amamos mesmo muito a Madeira), mas ao fim de uns dias constatamos que efetivamente esta ilha superou as espectativas e que fizemos muitíssimo bem em visitar a Madeira primeiro. Acredito que se visitássemos os Açores antes da Madeira, talvez a ilha do CR7 não nos tivesse marcado tanto!
Na madeira fizemos várias levadas, por trilhos mágicos, descobrimos quedas de água e estivemos sempre de sapatilhas nos pés, mochila às costas e olhos focados na natureza. Foi vibrante, intenso, emotivo e apaixonante. Só de pensar nisso já sinto a pele arrepiada e a nostalgia a descer-me ao coração. Em contrapartida nos Açores tudo é simples, colorido e belo. Na minha humilde opinião a grande diferença é que na Madeira temos de dar-nos à descoberta da beleza, dos encantos, das maravilhas enquanto nos açores está tudo ali... na beira da estrada, no brilho de uma hortênsia. Tudo tem encanto, não há momentos mortos na viagem, tudo surpreende e nos regozija a alma. É um sentimento tão relaxante estar ali... tudo é perfeito! Estou certo que os viajantes que não se entregarem de corpo e alma à descoberta da Madeira irão sempre gostar muito mais dos Açores porque... é mais fácil, está tudo ali... "pertinho" como diz a música.

Uma questão de tempo

Dizem que nos Açores num único dia é possível viver todas as estações do ano face à irregularidade climatérica. Confesso que nos cinco dias que lá estivemos não sentimos isso, mas se quem lá vive o diz é porque é verdade! Uma coisa é certa, acontece frequentemente estar tempo bom numa parte da ilha e tempo mau na outra, e para que os planeamentos corram bem não há nada melhor que utilizar a site/app Spotazores  para ver em direto como está o tempo nos vários pontos da ilha antes de sair de casa. Assim sendo, partilho a nossa experiência, sendo que desde já aviso que a ordem dos dias deve ser sempre ajustada ao clima caso queiras planificar a tua viagem com base na nossa experiência!

Primeiro dia - Ponta Delgada e costa sudoeste

Chegamos aos Açores pelas 9h00 no voo da TAP. Felizmente sou um pesquisador atento e submeti atempadamente o formulário com os dados pessoais e teste Covid para que a nossa entrada no arquipélago fosse agilizada! Correu bem, enquanto a maioria dos passageiros foram para a longa fila preencher o questionário (bastante longo), nós seguimos diretos ao rent-a-car e pouco tempo depois já estávamos na casa da fajã a ser acolhidos pelo proprietário. 

Entendo que o primeiro dia, sempre limitado ao tempo de chegada, deve ser aproveitado para descobrir Ponta Delgada, os seus jardins e as suas ruas. Descobrir um bocadinho da cidade primeiro, subir até à Ermida Mãe de Deus e apreciar a vista. Passear pelo pequeno mercado da Graça e se houver tempo descobrir o Jardim António Borges e o Jardim dos Namorados. Entrar na Igreja de São Sebastião, fotografar nos Arcos da Cidade e caminhar junto ao mar! 

Almoçamos muito bem na A Comercial - Cervejaria da Cidade, um bom bife muito tenro e suculento, e uma boa massa com almondegas acompanhada por uma Kima de Maracujá e uma laranjada. Como não pode deixar de ser, estas são bebidas obrigatórias uma vez que são produzidas nos Açores e acompanharam-nos em todas as refeições.

A tarde serviu para passear pela costa e descobrir os vários miradouros entre o aeroporto e a Ferraria. E são vários, a começar pelo Miradouro da Fonte da Rocha, o da Rocha da Relva e do Caminho novo. Se fizeres este caminho encontrarás pelo meio um caminho estreito de terra, não tenhas receio pois terás uma vista incrível sobre o atlântico e vais sentir-te mesmo no meio da vegetação. Seguimos rumo a feteiras ao encontro do Miradouro Vigia das Baleias e sem pressa fomos saboreando as curvas, as paisagens, o oceano e o verde até à Ferraria. O tempo aqui pregou-me uma partida. A chuva começou a cair e o vento a soprar forte. Ups!

Muito li sobre as Termas da Ferraria. Sobre a piscina natural de água quente, com as cordas, e sobre os seus efeitos tranquilizantes. Infelizmente não li assim tanto, porque por ignorância pensei que estava sempre assim: “Quente e aguardando a nossa chegada!”. Não é assim. Se pensares em aproveitar a maravilhosa piscina natural da Ponta da Ferraria, sabe que a mesma só é maravilhosa quando a maré está baixa! Por isso, planeia a hora de passagem por este local quando for indicada a maré baixa, conforme poderás ver aqui

Como já estão a imaginar quando lá chegamos chovia, ventava bastante e a piscina natural estava coberta pela forte ondulação. Como o local é repleto de rochedos acredita que era totalmente impossível ir à água naquele sítio. Foi pena, mas serviu de lição… e como é lógico voltamos noutro dia pois este lugar é obrigatório!

Nota: Este dia poderia ter corrido melhor se tivesse usado o Spotazores, talvez fizesse outra coisa qualquer em vez de ir à Ferraria, mas como foi o primeiro dia tivemos tempo de recuperar o "tempo perdido". Por favor, faz algo com mais sucesso! :D

Segundo Dia - Pelas Furnas (possível com tempo fraco)

Antes de tudo o resto: Se fores às furnas faz como nós e reserva o cozido no restaurante à tua escolha no dia anterior. Fiz a reserva enquanto jantava no dia 1 e tínhamos a mesa preparada à nossa espera. Foi muito desagradável ver as pessoas darem com o "nariz na porta" e perderem a oportunidade de comer cozido nos Açores!

Situada a dois minutos da “nossa” casa, a plantação de Ananases da Arruda foi o nosso ponto de partida para este dia. Um espaço com muitas estufas dedicado ao cultivo deste fruto, que nasce de forma peculiar, e onde gratuitamente é possível observar as várias fases de todo o processo. Incrível descobrir que pode levar até dois anos a ser produzido um ananás e que até lá ele irá ocupar uma considerável área de terreno e ser tratado afincadamente. À primeira vista deixa antever que não será lá muito lucrativo, mas disso não pesco nada. Todavia lá provamos o fruto que nos foi servido em pequenos pedaços e que nos fez lembrar tempos Tailandeses. O sabor é muito intenso, doce e delicioso. Vale apena a visita a esta produção e colher toda a informação sobre esta atividade tão característica da ilha.

Regressamos à estrada rumo a Vila Franca do Campo. Escolhemos fazer este programa neste dia (apesar de estar programado para outro) porque as previsões climatéricas não eram as melhores e de entre todos este pareceu-me aquele que poderia ser feito com tempo mais incerto e menos positivo. Correu bem! A chuva acompanhou-nos durante a manhã, ora fraca, ora forte, ora sol, ora tempo ameno... ora, felicidade sempre no nosso rosto!

Chegamos a Vila Franca do Campo, não para visitar o ilhéu (que não chegamos a conhecer, mas se poderes visita), mas sim para subir à ermida de Nossa Senhora da Paz. Escadaria emblemática, pintada de branco (nossa cor preferida), repleta de verde, flores e com a capela situada no topo da colina. Que cenário... WOW! Apesar das nuvens os meus olhos estavam colocados naquele ar "Clean" da subida. Os azulejos azuis destacavam-se no branco dos muretes, no verde das plantas e no cinzento do céu. Subimos os degraus com os pingos da chuva a bater no rosto e nos telemóveis que batiam fotos a cada passo. E quando olhamos para trás, sentimos o mar ondular-nos o pensamento e o ilhéu de Vila Franca a chamar-nos a si. Entramos na capela, agradecemos à vida a oportunidade de estarmos ali... em paz!

Não podíamos sair de Vila Franca sem degustar as Queijadas do Morgado. Hum... doce, intenso e fofo. Realmente Bom! Partilhamos os quatro as queijadas tradicionais, a queijada de Feijão e a Queijada de Coco. Gostamos mais da tradicional, mas todas as outras são fantásticas (quer dizer... ela nem tentou a de Coco porque simplesmente não suporta tal sabor)

Conquistados por Vila Franca do Campo, seguimos para a Caldeira da Lagoa das Furnas, junto ao parque grená. É ali que se prepara o famoso cozido e se colocam as panelas dentro do solo. Pelo preço de 3€ por pessoa temos acesso a todo o espaço, e a meu ver faz todo o sentido que a visita seja feita antes de almoço. Mal saímos do carro sentimos pela primeira vez o forte cheio a enxofre. Um cheiro muito forte, um pouco desagradável e enjoativo, que mesmo assim não perturbou a nossa visita. Assistimos à retirada de algumas panelas, quiçá alguma delas levasse o nosso manjar, e vimos serem transportadas cada uma delas por dois homens. Isto porque elas são bastante grandes e cada uma contém comida para 50 refeições, conforme explica o proprietário do restaurante num documentário algures no Youtube.

Passeamos junto às caldeiras, mas a chuva impediu que estivéssemos mais tempo e visitássemos o Parque Grená. Fomos para o Restaurante Tony's e deliciamo-nos com o saboroso cozido dos Açores. Confesso que as espectativas eram muito baixas! Somos de Castelo de Paiva e o que não falta nesta região e em todo o Norte de Portugal são bons cozidos! Todavia, não podia estar mais errado. O Cozido das Furnas estava divinal! O sabor a enxofre era leve e notava-se mais na hortaliça, mas mesmo assim estava saboroso. Também tinha lido que existem bastantes pessoas que ficam na dúvida se o que estão a comer veio mesmo da Caldeira das Furnas ou não foi confecionado ali mesmo no Restaurante Tony's! Pois bem, para além de notar um leve sabor a enxofre na comida, também presenciei que um casal pediu cozido e foi-lhes dito que não havia e que deveriam ter reservado o prato quando marcaram a mesa. Se não fosse das furnas e não levasse mais de 7h a ser confecionado certamente que haveria cozido... "penso eu de que!"

Ora o dito cujo veio muito bem servido, com carne de vaca super tenra e suculenta, frango saboroso e uma panóplia de enchidos acompanhados por vegetais, batata normal e doce, e o imprescindível arroz branco. O alaranjado de todo o prato característico dá um aspeto diferente ao tradicional do continente e o sabor de todo o prato é bastante mais intenso no arquipélago. Pagamos cerca de 100€ para quatro pessoas, mas sem dúvida que este prato é algo que não se pode prescindir numa viagem a estas bandas.

A tarde iniciou-se com melhorias do tempo, com o céu bem mais azul, mesmo a tempo da nossa visita ao Miradouro do Pico do Ferro. Localizado muitos metros, a pique, mesmo por cima do parque Grená, apresenta uma imagem impactante de toda a lagoa das Furnas e da vila. Uma imagem para saborear, sentir e ouvir o clique no cérebro que nos diz que estamos num lugar mágico.

Mil fotografias depois acabamos por sair dali fisicamente, mas ainda hoje ao escrever estas palavras (um mês depois), sinto que ainda lá estou… encantado com aquele pedaço de mundo. Adiantando-me na história devo dizer que um dia qualquer fomos lá à meia noite e estivemos deitados sobre uma toalha, de barriga para cima, a ver as estrelas. Ali a poluição luminosa é quase nula e como tal dei por mim, no meio do oceano atlântico a meia dúzia de metros de todas as estrelas do universo. Não acreditam em mim? Nunca vi tantas estrelas na minha vida! Parece que o céu de Castelo de Paiva mostra um décimo do que consegui ver naquele sítio. Eu que sou aficionado do céu noturno estou convicto que essa experiência foi a mais surpreendente de tudo o que vivi nos cinco dias na ilha! Por isso já sabes, se fores a S. Miguel e o céu noturno estiver limpo, vai ao miradouro do pico do ferro e olha para cima!

Fizemos uma breve passagem pelas caldeiras das furnas, vimos o milho ser cozido a altas temperaturas, provamos água com gás a sair das nascentes, mas a determinada altura o enxofre tornou-se demasiado intenso. Talvez por estarmos de barriguinha cheia não conseguimos aguentar muito mais tempo e acabamos por seguir para o destino seguinte… o Parque Terra Nostra!

E que parque! Devo recordar, que tudo isto que vos conto está a ser vivido em tempos de pandemia, mas sem dúvida que os Açores estavam em Agosto já bem preparados para viver este período. “Mascarados” em toda a parte, dentro e fora dos estabelecimentos, mesas sempre desinfetadas antes de nos sentarmos, lugares sempre distantes em todos os restaurantes. Sentimo-nos bem e acima de tudo “protegidos”! Ora no Parque Terra Nostra não foi exceção.  Pagamos 8€ por pessoa e visitamos toda a zona verde do parque e tivemos acesso à piscina. A tão famosa piscina castanha, tantas vezes fotografada, descrita e apreciada, e que todos os dias vende esta ilha pelo mundo da internet! As entradas eram controladas, para que nunca estivesse mais do que a lotação permitida no plano de contingência. Cumprindo as regras, tivemos os nossos vinte minutos “dourados” dentro daquela água com quase quarenta graus! Fechei os olhos e senti que estava na Tailândia e quando abri novamente sorri... porque afinal, o paraíso está mais perto do que eu imaginava. Pensei que queria ficar ali horas a sentir aquele relaxamento, mas ao fim de alguns minutos a vontade era de ir para um lugar mais fresco, porque estar ali acaba por nos transmitir “cansaço”. Foi uma experiência para a vida, muito intensa e fascinante, e com isto já são várias as coisas que acabo a dizer que é imprescindível numa visita aos Açores. Não sou eu a exagerar, nem a dar uma de exibicionismo por ter vivido isto. É mesmo sentido e é mesmo real.

Saboreamos e devoramos bolo lêvedo, também tradicional das furnas, e seguimos até à
Ribeira Quente. Como é logico primeiro vimos a casa invertida e depois seguimos viagem com a câmara do telemóvel pronta a fotografar a cascata que é apenas visível a meio do túnel. Na Ribeira Quente encontramos a Praia do Fogo. Areia preta, com um areal extenso, guarda-sóis de madeira, muitas pessoas e um mar calmo. E água? Deliciosa. Foram cerca de sessenta minutos de banho, em contacto com o “Mar dos Açores” que nos lembrou a música do Eduardo Mourato, que tínhamos acabado de ouvir no carro em Loop! Haja alegria e ali estávamos mesmo felizes!

O dia terminou nas ruas de Ponta Delgada, mas ficou-nos a tristeza de a Poça Dona Beija estar fechada nesse período por causa do Covid! Tinha nos meus planos visitar esse local fascinante depois de jantar, uma vez que habitualmente encerra às 23h, mas a pandemia quis dar-nos mais uma razão para voltarmos a São Miguel um dia.

Terceiro Dia – Sete Cidades

"Isto anda tudo ligado!"

Munido de Spotazores, IPMA, Maps, Tripadvisor, entre outros… sinto-me mais munido para vencer o dia do que os militares portugueses em tempos coloniais. Este universo novo tecnológico revolucionou a forma como vemos o mundo e mudou totalmente o conceito do turismo. Guarnecido de todas estas ferramentas vi que este era o dia certo para ir às Sete Cidades. Invejo e admiro aqueles que viajam sem qualquer preparação do que vão fazer, ver e encontrar. Eu antes de ir tenho de saber tudo isso e muito mais e confesso que sou incapaz de ir assim… livre, despreocupado apenas jornadeando por “mares nunca dantes navegados”. Carrego em mim sempre a missão de “guia” e os quatro seguíamos aos meus comandos, para lugares que eu já conhecia mesmo sem nunca lá ter ido e que mesmo assim não deixavam de me surpreender.

O planeamento de uma viagem a S. Miguel deve ser feito com alguma flexibilidade para podermos adaptar o roteiro às condicionantes atmosféricas. Senti isso assim que chegamos ao miradouro do Pico do Carvão. O primeiro ponto de interesse do dia, no caminho para a lagoa das Sete Cidades. Estava um nevoeiro cerrado e não víamos praticamente nada! Desiludido por mais uma experiência falhada, consultei as previsões das marés e o acaso mostrou-me que estávamos a uma hora da maré baixa. Sem grandes demoras demos a volta e seguimos para a tão deseja piscina natural da Ponta da Ferraria.

O nevoeiro tapava o verde e confundia-se com o branco das vacas felizes. Um grande erro este… somente ao fim de se 2690 palavras falar-vos das tão importantes vacas felizes. Para onde quer que seja o caminho, em São Miguel há seguramente vacas à vista. Cercadas praticamente sempre por um arame com corrente elétrica, espalhadas pelo verde bem tratado, em planícies, declives, ravinas, colinas e bermas da estrada. Elas estão em todo o lado até nos lugares menos prováveis. É toda uma indústria que vive do leite que as vacas produzem e que movimenta a economia da ilha e do arquipélago. Por toda a parte encontram-se as carrinhas de caixa aberta devidamente equipadas para transportar o leite. Para nós turistas as vacas tornam-se o expoente máximo da tranquilidade Açoreana. Sentimo-nos contagiados pela sua postura descontraída e natural, felizes pelo pasto verdejante sempre à sua volta. Ao fim de poucos minutos de reflexão chegamos à conclusão que reencarnar em forma de vaca, como acreditam os Indianos, pode ser algo encantador… isto se, os Açores forem a nossa casa. Quem não gostaria de estar ali, naquela paisagem a saborear o mundo?

Da ânsia e da frustração nasceu a recompensa em forma de água divina. A Ponta da Ferraria mostrou-se incomensuravelmente mais profícua do que tinha imaginado. Descemos os degraus até pisar as rochas negras vulcânicas, observamos cerca de meia centena de turistas, na sua maioria Açoreanos e analisamos o movimento das cordas que se moviam ao sabor da ondulação e eram o suporte de vários banhistas.

Ao entrar na água sentimos uma temperatura ainda mais forte do que no Parque Terra Nostra. Ali, naquele pedaço de água em forma de piscina natural, entra de um lado água do mar, em Agosto com pouco mais de vinte graus e do outro lado, por baixo das rochas vulcânicas, sai água a mais de sessenta graus. É um efeito térmico sensacional. Quando queremos sentir calor vamos para junto das rochas e quando queremos refrescar nadamos em direção ao mar. Com a ondulação é muito difícil estar sempre no mesmo sítio, pelo que as cordas acabam por ter utilidade quando o objetivo é relaxar ao sabor da maré. É tão bom estar ali a flutuar, sentindo as correntes ora quentes, ora muito quentes, ora amenas, ora mais frias, ora novamente muito quentes. É uma espécie de praia de São Torpes com vinte vezes mais intensidade!

No almoço experimentamos os buffets, muito usuais em vários restaurantes da ilha, onde por um valor fixo (entre 7€ e os 13€ - o nosso mais barato e o mais caro) que não inclui mais que uma bebida podes comer o que quiseres, de entre os pratos disponíveis, e repetir as vezes que quiseres. Lógico que não aproveitamos para comer “este mundo e o outro”, mas deu para degustarmos várias opções gastronómicas da ilha e melhorar o nosso conhecimento sobre os seus métodos culinários.

Enquanto aguardávamos por mesa (sim, mesmo em tempos de pandemia tens sempre que reservar mesa) navegamos pelas margens da lagoa das Sete Cidades. Atravessamos a ponte que divide as águas verdes das azuis, que nesse dia apresentavam tonalidades muito vivas. Embrenhamos pelo verde da vegetação, num caminho de terra batida muito irregular e inóspito que circundou uma mini península no Cerrado das Freiras. Avistamos os caiaques, os praticantes de paddle e os patos. Absorvemo-nos da natureza e da riqueza daquele lugar, que mesmo assim não nos abstraiu de sentir os apelos do estomago.

A tarde fez-se de miradouros e de subida para colhermos as melhores vistas da ilha e as que mais vezes fazem capas de revista. Conforme subíamos melhorando ia a paisagem. Observamos a verdejante lagoa de São Tiago e as cores sublimes das lagoas da Sete Cidades. Fomos subindo até desembocar no afamado Miradouro da Vista do Rei. Tal como a maioria, chegados ali rapidamente trocamos essa vista pela descoberta do abandonado Hotel Monte Palace e as suas varandas panorâmicas. Confesso que sou acrofóbico e que muito me custou subir as escadarias de caracol sem proteção. Olhar para baixo foi totalmente excluído das minhas possibilidades e percorri os corredores encostado às paredes, sentido um aperto no coração. Mas isso não me impediu de estar ali, naquele cenário fantasmagórico e desprezado, sem qualquer proteção e propício a acidentes de percurso. As varandas efetivamente proporcionam a melhor vista sobre as lagoas e sem dúvida que aquele hotel foi construído num dos locais mais belos de toda a ilha. Esforcei-me para parecer descontraído nas fotografias, mas à primeira oportunidade desci para “terra firme” e não tirei total partido daquele universo paralelo à magia das hortênsias coloridas do outro lado dos muros.

O melhor, na minha opinião, guardei para o fim. A poucos metros dali deixamos o carro e contornamos um portão fechado que impedia o acesso de carro ao Miradouro da Grota do Inferno. Dez minutos de caminhada, velados por árvores de grande porte que escondem a Lagoa do Canário e uma floresta mágica com microclima próprio, demos passos até ao miradouro. Bem, quando perfilamos e nos preparamos para o declive final em terra batida sentimos a curiosidade arrebate-nos e a vontade de trepar a colina serve de ignição aos músculos. Sentimos um baque na retina e uma vontade ineloquente de abrir os braços e replicar todas as imagens de capa de revista que já tinha visto desta ilha verde. Que cenário! Sentimos verdadeiramente que estamos na cratera de um vulcão verde, repleto de água por dentro e por fora e a todo o momento chegam mais navegantes que transmitem sempre a mesma sensação e vibração positiva. Quando ganhamos coragem de voltar ao carro optamos por contornar a floresta pelo lado oposto. Seguimos um single track, por entre vegetação densa, que colocou à prova o nosso espírito aventureiro e nos proporcionou um contacto intimo com aquele lugar fascinante.

A tarde já ia a bem mais de meio quando saímos dali. Até ao final do dia fomos saboreando a costa norte de Mosteiros até Rabo de Peixe. O caminho fez-se devagar, com muitas paragens à mistura. O mar estava bravo e poderíamos ter ido para as praias próximas a Ponta Delgada, com bandeira verde nesse período, mas optamos por apreciar o rebentamento das ondas. Sentados sobre rochedos vulcânicos sentimos abalos semelhantes a um sismo, sempre que a água batia com mais intensidade e aquele som serviu como um massajador das ideias. É tão fácil abstrair da vida, dos problemas, da rotina, das preocupações e descontrair estando ali.

 

Quarto Dia – Nordeste

Ao fim de três dias podes pensar que já viste tudo, mas seguramente não viste! Nem ao fim deste roteiro, quanto mais ao fim de três dias. Este dia foi pensado para conhecer o Nordeste e tudo que é interessante pelo caminho. Saídos de Ponta Delgada seguimos para a Lagoa do Congro. O Google Maps não reconhecia o local correto da entrada para visitar a lagoa, mas por sorte não segui as suas indicações e enfiamos o Renault Clio por um caminho de terra batida, mal-amanhado, que apresentava a placa para a lagoa. Por entre campos verdejantes, muitos olhares de vacas desconfiadas e dois ou três condutores de carrinhas “do leite” fomos contornando os vários buracos que surgiam a meio do caminho. Aquele carro ali sentia-se como uma mulher de tacão alto a caminhar sobre paralelos. Não foi fácil… mas conseguiu! E assim foi, paramos o carro junto às arvores altas e supusemos que fosse ali, apesar de não vermos lagoa nenhuma. Descemos pela floresta que parecia retirada de uma qualquer parte do “Senhor dos Aneis”. Foram dez minutos de caminhada descendente sobre o manto verde, debaixo das árvores e dos pássaros que anunciavam a nossa presença. Ao fundo avistamos a verde Lagoa do Congro. Consegues sentir que estás num “buraco” gigante, rodeado de arvores que acompanham o declive da falha do vulcânica. Assim que proferi as primeiras palavras apercebi-me do eco intenso daquele lugar. Em uníssono entoamos sons e melodias que a natureza se encarregou de replicar durante uma fração de tempo, duradoura, como nunca tinha experienciado. Se visitarem este local façam essa experiência e seguramente terão uma sensação incrível da intensidade do eco.

Já íamos a meio da manhã quando chegamos ao Parque Natural da Ribeira de Caldeirões. Na chegada somos brindados com uma cascata, que nos faz lembrar a forma do véu de uma noiva. Após várias tentativas, lá conseguimos o enquadramento certo para que a fotografia dela transpusesse essa narrativa. Por um curso pedestre subimos pela margem do rio e fomos à descoberta. A entrada do parque era no sentido oposto, mas estávamos a gostar daquele lugar. Encontramos várias quedas de água e muitos locais aprazíveis para molhar o corpo, não fosse a temperatura da água tão pouco convidativa e era o que teríamos feito. Antes de reverter o sentido da caminhada fomos ainda saudados por um grupo de aventureiros, praticantes de desportos radicais, que seguiam para umas cascatas mais acima, mas de difícil acesso.

O parque é uma espécie de jardim, numa encosta ingreme, repleta de moinhos, zonas verdes e quedas de água. Não faltam por isso espaços perfeitos para registar na máquina fotográfica. Não é à toa que chegamos ao final das férias com mais de quatro mil e quinhentos ficheiros entre imagens e vídeos… é difícil resistir à tentação! Compramos algumas lembranças na loja de turismo local e aproveitamos para descobrir as queijadas da Graciosa. Bem, totalmente diferentes das de Vila Franca, mas as nossas preferidas.

O almoço foi novamente em forma de buffet e dedicamos o início da tarde à busca da famosa cascata do Salto da Farinha. Bem, foi um pouco difícil dar com o sitio, primeiro porque o google maps quando não deteta estrada no local preciso, indica-te o local de estrada mais próximo... em distância. Que dizer que se o local mais próximo em linha reta estiver a uma altitude considerável e não existir acesso pedonal, será para lá que ele te vai enviar. No nosso caso foi quase isso! Depois de várias voltas lá conseguimos descer quase até ao mar e descobrir o início do trilho. Uma caminhada num sítio muito interessante, totalmente verde e cercado pelas elevadas porções de terra envolvente. Quando atravessamos a ponte de madeira e subimos para o topo da rocha ,sentimos que chegamos ao sítio certo. Procurei imagens na internet para comparar, e sim… efetivamente estávamos no sítio certo. Afinal fora a água da cascata que estava a um centésimo da sua intensidade. Quando jorra intensamente e cai sobre as rochas aquele cenário deve ser mesmo fenomenal, todavia aquele não era o dia. Corria somente um pequeno fio de água. Apesar de tudo gostamos da visita e tivemos pena de não fazer o trilho, com elevado grau de dificuldade, até ao poço azul.

Nesta parte da ilha existe o acesso ao Pico da Vara, ponto mais alto da ilha, mas é necessária autorização governamental para fazer o seu trilho, e como o nosso nível atlético não é o melhor, acabamos por nem colocar essa possibilidade nos nossos planos. Fica a esperança de um dia conhecer tal preciosidade.

Aproveitamos para seguir pela costa, parar nos aclamados miradouros da Ponta do Sossego e da Ponta da Madrugada. Bem, sendo Domingo no nosso dia de passagem reparamos que havia dezenas de Açorenos a usufruir de parques de merendas. Para além dos locais onde estão instalados serem de uma beleza extraordinária, destaquei o facto de serem imensas as mesas, estarem afastadas e terem churrasqueiras individuais. Ao contrário do que acontece na nossa região, ali cada mesa tinha o seu espaço para grelhados, tornando a realidade continental “de ter de ir cedo para os merendeiros para guardar mesa e grelhador” totalmente inútil.

Apreciamos o mar, refletimos sobre a vida, seguimos com os olhos o rumo das aves, voltamos ao carro e paramos no Faial da terra. Vila muito modesta e muito frequentada. O nosso objetivo era visitar a Cascata do Salto do Prego, mas face ao tempo que dispúnhamos e pelo facto de ainda queremos sentir o mar nos ossos, acabamos por não fazer o percurso que nos levaria mais de uma hora.

Subimos de carro até ao miradouro do Pico dos Bodes e invadimos a estrutura metálica, escadas acima, para o possível posto de vigia abandonado, para ter a melhor vista possível. Assim foi, o verde por baixo de nós descia a encosta e beijava o mar. O sol dava-lhe brilho e também refletia no oceano. Ao fundo víamos a Povoação e atrás de nós o topo da serra meio encoberto pela neblina. Ali senti vontade de soltar um queijo e vê-lo descer a colina com velocidade. Um jardim verde no meio do oceano, tranquilo, magistral e cheio de vida. Uma das paisagens mais melancólicas que guardo de São Miguel e que observo perfeitamente cada vez que uno as pálpebras.

Começamos os mergulhos na Praia da Povoação e procuramos melhor sorte na já visitada praia do Fogo. Tudo isto porque ela desejava comer lapas e tínhamos mesa reservada na Ponta do Garajau. O mar estava bom e a praia convidava a caminhada pela areia. É muito mais fácil caminhar na areia negra vulcânica dos açores do que na areia normal. O piso é muito mais consistente e o passo augura-se, por certo, muito menos esforçado.

As Lapas “estão divinais”, confessou-me ainda mal recomposta pela primeira trinca. Constatei que sim e consegui comer algumas… mas ela nada deixou para contar a história. As lapas são grelhadas e servidas na sertã, acompanhadas de limão para regarmos antes da degustação. É muito tradicional nas ilhas e são do sabor autêntico do mar que as rodeia. Pelo que fomos vendo cada prato custa entre dez e quinze euros. Para jantar experimentamos o polvo, muito saboroso e tenro.

 

Quinto Dia – Norte da ilha

Mais um dia que começa cedo. Nem valia apena hoje ver as câmaras e escolher o melhor local para ir. Só tínhamos este dia e estava fora de hipótese não fazer este roteiro… desse por onde desse. São raríssimos os dias em que a Lagoa do Fogo se apresenta de céu limpo. Era bem cedo quando chegamos e fomos contemplados com um tempo maravilhosamente encoberto e ventoso. O nevoeiro colava-nos à pele e distorcia-nos o rosto, mas ao mesmo tempo formava nuvens como nunca antes tinha visto. Ao sabor do vento subiam as encostas da serra e assim que chegavam ao topo desciam junto à vegetação e tocavam na Lagoa do Fogo. Estava a ver uma cascata pintada de branco e formada por nevoeiro. O miradouro do Pico da Barrosa acabou por não nos mostrar nada, mas quando chegamos ao miradouro da Lagoa, propriamente dito, o nevoeiro perdeu o folego e fomos contemplados com um céu azul brilhante e um sol risonho. Wow! Dizem quem por lá vive que é raro encontrar assim a lagoa do fogo, mas tivemos essa sorte.

Deixamos o carro, subimos pela crista da colina e após várias pesquisas infrutíferas online, consegui perceber que o caminho para a lagoa se faz a pique e começa mesmo junto à estrada do miradouro. Degraus em degraus, pelo caminho sinuoso e ingreme em terra batida, sem perder de vista o contorno da cratera vulcânica, onde adormecida vive a Lagoa do Fogo. Quinze minutos depois e maravilhados ao ponto de não sentir as dores nos joelhos, descemos a última escada e pisamos a areia vulcânica. Em baixo é gritante a sensação de estar dentro de um vulcão e aquela imensidão de água parada envolvida pelas arvores, pelas rochas e pela vegetação transmitem-nos uma sensação de grandiosidade. Caminhamos pela margem, sentamos nas pedras, apreciamos os reflexos e fomos saudando os turistas que chegavam em catadupa e não escondiam o brilho no olhar. É incrivelmente belo aquele quadro da natureza e provoca-nos sensações introspetivas. Parar, pensar na vida como tanto gosto, a determinada altura não sei se estou eu dentro da cratera ou já ela está dentro de mim. Recomendo este lugar sagrado a qualquer amante da natureza e desejo-lhe a mesma bênção de São Pedro.

Não fosse o covid e teríamos apressado o passo, sentido menos, e refastelado o corpo nas águas termais da Caldeira Velha. No nosso dia de passagem estavam encerradas as piscinas, sendo possível percorrer o parque, todavia preferimos deixar esse lugar mágico para outra vinda a S. Miguel, para que nunca nos faltem motivos para voltar.

Descemos a encosta, apreciamos a paisagem e enfiamos pela descida ingreme até ao Salto do Cabrito. Um local também épico, onde é tal a intensidade da água que rapidamente nos recompensou pela desilusão do Salto da Farinha. Sentados na rocha e com as mãos a sentir as águas gélidas, não retivemos o olhar impactante da imponente queda de água e da espécie de gruta formada no seu topo em forma de bolsa, que vai retendo a água que recebe de uma outra cascata na parte superior. Fui observando o espaço envolvente e dei por mim sentado uns anos antes a apreciar, na mesma posição, o caldeirão verde na Madeira. Não é igual, mas por momentos estive em ambos os locais ao mesmo tempo. Esta linha de pensamento foi quebrada pelo surpreendente encontro com o amigo e também paivense Manuel Mendes, que andava num circuito por várias ilhas Açoreanas. Dois dedos de conversa chegaram para nos deixar também a nós a vontade de o tomar como o exemplo, e fazer da sua experiência um dia a nossa.

O almoço fez-se no obrigatório Restaurante da Associação Agrícola de São Miguel. As opções gastronómicas são várias, mas para nós bastava ter um prato… o famoso bife! Três tipos de bife à escolha, com três opções de tamanho e servido “à cavalo”. Escolhemos o bife do meio, no tamanho do meio e acertamos em cheio. Saboroso, suculento, tenro e picante. Bem no ponto! Não fosse a minha paixão por Arouca e pelos bifes de Alvarenga e pela posta do Assembleia e talvez não hesitasse em dizer que tinha sido a melhor carne de sempre. Assim fico na dúvida e vou voltar a experimentar quatro ou cinco vezes em cada um dos lados até me decidir.

De barriga bem cheia partimos à descoberta da cidade de Ribeira Grande. Um pouco mais suja e menos bem tratada do que tudo o resto, acabou por não nos cativar muito, confesso. Pouco tempo depois voltamos à estrada e subimos encosta acima acompanhados pelas vacas. Após várias produções agrícolas chegamos ao topo da serra e fomos brindados pela simples lagoa de São Brás. À primeira vista diria que estava num campo de golfe. Tudo verde, como sempre, uma lagoa envolvida na natureza, com um filamento de arvores altas nas suas costas. Tudo bem pintado, bem desenhado e bem definido. Tenho a sensação de que os Açores foram desenhados por alguém perfecionista, que gosta de tudo bem definido e no seu lugar. Coloquei a lagoa dentro de um retrato e emergi no meio da vegetação, espantado, como sempre, pelos seus microclimas tão intensos. Aqui as arvores surgem em fileiras, sempre bem definidas, e dentro delas há sempre microclimas e uma vegetação ímpar. Não dá para não ficar estupefacto.

De verde em verde, fomos em busca do mais verde chá. Gorreana! As famosas plantações de chá, como só há nos Açores e em mais lado algum da Europa. Antes de passear pelos campos percorremos a fábrica, que funciona de portas abertas e todos os processos do chá são feitos “para turista ver”. O custo da entrada é nenhum e apenas dispõe de uma lata para gorjetas na mesa onde os trabalhadores separam as folhas da planta dos “pauzinhos de madeira” a um ritmo verdadeiramente frenético, capaz de me provocar tendinites só de olhar. No último espaço encontramos uma pequena venda com souvenires e o bar. Aqui o chá é grátis, percebi isso após estar alguns minutos de nota estendida e ser avisado pelo funcionário. Provamos o chá verde, servido quente, e o chá preto de hortelã pimenta, servido frio. Ambos deliciosos e ótimos para degustar sem açúcar.

Ansiávamos pelo último mergulho na ilha. Por entre as várias opções da costa norte tinha escolhido a Praia da Viola e foi para lá que fomos. Quer dizer, pelo menos era para lá que tentávamos ir, mas o raio do google maps voltava a fazer das suas e a mandar-nos por um caminho de alcatrão, que poucos metros depois estreiteceu e deu lugar à terra batida. Não fosse o declive acentuadíssimo e teríamos seguido encosta abaixo. (Ao fim de 6305 palavras aproveito para finalmente dizer que os açoreanos, pela nossa experiência, são um povo muito simpático apesar de por várias vezes ter lido o oposto). Abre-se o portão e o homem pergunta-nos se procuramos pela Praia da Viola. Já não eramos os primeiros que o homem ajudava nesse dia e indicava o caminho certo… que era bem distante dali. Á custa do Google Maps e de má sinalização, aquele homem arranjou entretenimento fácil e pode fazer a “boa ação do dia” várias vezes ao dia, todos os dias do ano.

A Praia da Viola é encantadora. A começar desde já pelos moinhos abandonados que encontramos no início do caminho e “escondem” a cascata da Viola. Por entre as pedras e os socalcos alcançamos a posição certa e perpetuamos o momento num registo fotográfico interessante. O mar não estava muito calmo com a nossa chegada e as suas ondas batiam de forma vigorosa contras as rochas vulcânicas que percorremos cuidadosamente até chegar à areia. O areal é negro e extenso. Ao longo da areia vão desaguando várias quedas de água que brotam do meio da vegetação. Olhando em redor sentimos a envolvência do cerco das paredes rochosas nas nossas costas e o mar azul à nossa frente. Estamos num refúgio natural. A determinado momento reparo numa bica de água que saía da ponta de um cano, que descia serra abaixo, até ao patamar de cimento, poucos degraus acima da areia. Um chuveiro natural com água fria, que tornava o cenário totalmente pitoresco. Pequeno duche tomado, enquanto sustia a respiração, e saí dali preparado para enfrentar a temperatura do mar. As correntes surgiam de dois lados distintos e as condas nem sempre vinham em direção à areia. Por vezes formavam-se remoinhos e ondulação lateral intensa que, por receio, nos impediu de permanecer ali.

Esse mote levou-nos a procurar águas mais brandas, que encontramos mais à frente. Estávamos nas piscinas naturais das Calhetas da Maia, no meio de rochas escorregadias, com água protegida pelo paredão vulcânico. A água não era tão quente quanto desejado, mas soube-nos bem dar aqui o último mergulho das férias em São Miguel.

O Jantar fez-se na freguesia mais pobre de Portugal. Quem entra no restaurante O Pescador, dificilmente imaginará esse cenário ali... em Rabo de Peixe. Foi sem dúvida o melhor atendimento de todos, feito por alguém muito competente, profissional e que naturalmente domina o assunto. Provamos a caldeira de peixe, preparada com peixe fresco, as lulas, também elas frescas, e o bacalhau. Eu que não sou amante de peixe degustei a refeição com muito entusiasmo e devorei tudo o que me apareceu à frente. Como não recomendar uma visita a este lugar?

O regresso a casa fez-se no dia seguinte. O regresso aos Açores espero... que se faça em breve!

 

 

Considerações finais

Se chegaram a esta parte do texto, sem fazer scrool, seguramente não terão dúvidas que esta experiência foi vivida com intensidade e que saí-mos de São Miguel muito impressionados. Como não poderia deixar de ser, nem tudo correu tal como previsto e acho que poderia ter sido ainda melhor o planeamento. Aconselho-te por isso a beber desta experiência e outras mais de forma a melhorar a tua.

O meu objetivo com este blog é: em primeiro lugar a preservação da minha memória futura, em segundo o prazer da escrita e por último, e não menos importante, a partilha com terceiros tendo em vista a utilidade do meu pouco conhecimento.

Utilizo este espaço para narrar, com breve detalhe, as experiências e os locais que fizeram parte desta viagem. Espero conseguir cativar-te a preto e branco, sem recurso a imagens para te apresentar cada um dos pontos de interesse, uma vez que isso facilmente tens acesso numa simples pesquisa online.

 

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Voar para os Açores em tempos de pandemia

22.09.20 | André Maria

Voar em tempos de pandemia

 

Não fosse a pandemia de covid-19 existir e os preços atuais da aviação fariam o turismo bater todos os records. Em condições normais, nunca teria deixado para 15 dias antes a preparação de umas férias.

Na verdade, e por estar sensibilizado para este grave problema de saúde pública, não estava nos nossos planos recentes voar em 2020. Todavia, sendo eu um pesquisador frequente de voos para destinos que são do meu interesse, seria impossível não reparar que alguns desses destinos estavam acessíveis como nunca antes visto em Agosto!

A minha primeira opção foi os Açores. Desde 2016, depois de visita ao funchal, que ambicionamos umas férias nos Açores, mas o preço nesta altura do ano não é nada convidativo para a nossa carteira. Este foi o ano atípico que quebrou essa “barreira orçamental”.

A menos de quinze dias da partida compramos 4 voos na TAP com origem no Porto, Stopover de uma noite em lisboa, e chegada a Ponta Delgada. Tudo isto pela módica quantia de 320€ (ida e volta).  Ou seja, ir e vir ficou por 80€ por pessoa e inclui o teste ao Covid19 pago pelo Governo Regional dos Açores.

 

Como funciona o Teste Covid19 pago pelo Governo Regional dos Açores?

Essa foi uma das coisas que me levou a algumas dúvidas e várias pesquisas. Como forma de proteção o Governo Regional dos Açores obriga a apresentação de teste negativo ao covid19 na chegada ao Aeroporto ou então a realização do mesmo no aeroporto e o isolamento profilático obrigatório até haver resultado.

Como esta medida seria impeditiva para o turismo, uma vez que o teste ainda fica caro, o Governo Regional assume essa despesa! Assim sendo, acaba por ficar mais barato o voo para os açores do que o próprio teste ao Covid.

Assim sendo, e caso estejas a pensar viajar para os Açores o que deves fazer é consultar no site https://covid19.azores.gov.pt/ todas as normas em vigor e a lista de laboratórios que têm parceria com o Governo Regional.

Após a compra da viagem, deves contactar o laboratório mais próximo de ti, que conste na lista oficial das parcerias, e agendar o teste para as 72h antes do voo (no nosso caso foi em Penafiel, pela empresa Germano de Sousa). Fica a saber que não tens de pagar nada para realizar o teste, apenas apresentar identificação e comprovativo de compra do Voo.

No nosso caso o teste foi feito às 15h00 da tarde e às 9h00 do dia seguinte recebemos o resultado (negativo) por SMS e Email. Um serviço rápido, prático e muito eficiente.

Caso o resultado fosse positivo ficaríamos em terra e teríamos algum prejuízo, mas é um risco que tem de ser correr, mas com preços tão convidativos… quem não arrisca não ganha!

 

Logística nos Açores

Primeira coisa a fazer é tratar do alojamento. Para a viagem de 5 noites, sendo esta uma viagem de 4 pessoas (dois casais), entendemos que faria sentido uma casa. Dessa forma poderiamos conviver um pouco mais e ainda poupar algum dinheiro! Assim foi.

Ficamos alojados na Casa da Fajã, na freguesia de Fajã de Baixo, próximo de Ponta Delgada, a 5 min do aeroporto e a menos de 1h de qualquer ponto de interesse na Ilha. A casa estava equipada com cozinha, máquina de Lavar Roupa (útil para nós que viajamos apenas com mala de mão), 4 quartos com cama de casal, 2 casas de banho, sala com sofá cama, jardim exterior com churrasqueira. Uma casa muito boa, com obras recentes, que dava para 8 pessoas perfeitamente, pelo preço fantástico de 380€ para 5 noites! Cerca de 38€ por casal por cada noite. Uma verdadeira pechincha, que no caso de ter sido ocupada por 4 casais ficaria a 19€ por casal! Não é de arriscar em tempos de covid?

Alugamos um Renault Clio a diesel na Sixt, por 90€ os 5 dias, acrescidos de 130€ para seguro contra todos os riscos. Totalizando 220€ numa viatura muito confortável e económica e suficiente para 4 pessoas.


Orçamento Açoreano

Feitas as contas 920€ totalizaram o investimento em Viagem, Casa e Carro, para 4 pessoas e 5 dias fantásticos nos Açores. Algo como 230€ por pessoa a que acresce despesas normais de alimentação e atrações turísticas.

 

Com um preço tão encantador como era possível não cair em tentação? Tivemos a sorte de o teste dar negativo e termos vivido 5 dias intensos nos açores, de 20/08/2020 a 25/08/2020.

 

Descobre o nosso roteiro de viagem para 4 dias nos Açores no próximo Post!

 

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