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Passear Contigo, Amar e Ser Feliz

CAP II - A nossa passagem por Bangkok (2/2)

08.03.19 | André Maria

 

 

Uma espécie de ressaca

 

És daquele tipo de pessoas que se levanta tão cedo nas férias como em dias de trabalho? Nós também, mas é só quando conseguimos.

Já eram nove da manhã quando chegamos à sala de pequeno-almoço do Nouvo City Hotel e aquele não era o caso. O nosso rosto mostrava um feitio tenebroso e a nossa voz não tinha poder nem dinâmica. Estávamos de rastos e as oito horas de sono não foram suficientes para saldar o crédito.

Tínhamos fome. Escolhemos uma mesa, entre mais de trinta, junto à parede com enorme painel de vidro e vista privilegiada para as traseiras do hotel. Se estivéssemos despertos teríamos conseguido ver o aglomerado de arvores da margem do canal, de água lamacenta que já conhecíamos bem, mas aquele não era definitivamente o caso.

Perdi-me opulentamente e sacie-me com gula, confesso. Havia tanta variedade e a minha barriga estava mesmo a pedi-las. Enquanto isso sabes o que comia ela? Tal como em casa, atirou-se ao pão seco e à caneca com leite. Ali, porém, até fazia sentido, porque não é fácil encontrar isso na rua.

De cara lavada, saímos do hotel e em poucos segundos negociamos um táxi até ao Grand Palace. Este era o dia destinado a conhecer os principais templos da Tailândia.

 

Um encanto real

 

Enquanto procurávamos o local de entrada no edifício lá estava outro homem a meter conversa por causa do dia da Rainha e do Grande Palace estar fechado. Já não tínhamos paciência para esses esquemas parvos e enfiamos com uma excursão de chineses pelo portão principal.

O sono tinha sido tão forte que não me lembrei que não podia entrar com joelhos à vista nestes templos. E a verdade é que só dei conta quando vi a primeira vez uma tailandesa que não sorria e mostrava feições intimidantes. Não me disse uma palavra. Simplesmente apontou para os meus joelhos e de seguida para uma loja de roupa para o efeito.

As opções para homem eram praticamente zero e acabei por comprar umas calças tradicionais de cor azul, de material elástico, super leve e confortável. Não fosse o seu padrão de cor branca, composto por elefantes e uns desenhos típicos, dar-me um ar muito alternativo e feminino, registado em todas as fotografias desse dia, eu até não tinha ficado aborrecido.

À primeira vista o Grand Palace é composto por um portão inicial, onde são adquiridos e bilhetes e fazem a triagem dos turistas, com um corredor de aproximadamente 200m delimitado por arvores de cedro altas. Do lado esquerdo do corredor vê-se um enorme campo relvado e do lado direito vários edifícios, sendo um deles a loja de roupa e outro um café, enquanto ao fundo já se vislumbra o topo dos templos de cor, dourada e formas bicudas.

Naquele dia, como em todos os outros, o Grand Palace estava lotado. Eram dezenas de grupos orientados por guias, que na sua maioria andavam equipados com microfones capazes de transmitir para os phones dos turistas. Ouvíamos falar várias línguas, mas o destaque eram os chineses. Provavelmente estávamos a cair num erro por resumirmos Coreanos, Japoneses e outras nações a chineses, mas é tudo uma questão de estereótipo.

No final do caminho esperava-nos uma revista militar seguida de uns jatos de vapor de água, que foram incapazes de nos apagar o calor, e até hoje não sabemos com certeza qual o seu propósito. Entramos no complexo sagrado, sem perder grande tempo, e demos início
à sessão fotográfica.

O espaço é sem dúvida interessante pelo misto de fascínio e ostentação que transmite. Não se trata de um único edifício, mas de vários e totalmente decorados de várias cores, com principal destaque para o dourado. Para além da imagem típica dos budas, naquele espaço existem vários representações de Thotsakhirithon, que é o demónio guardião do templo. Thotsakhirithon, que faz lembrar um palhaço assustador, pode ser encontrado várias vezes como figura de destaque, sempre de cores diferentes, e também sendo usado em tamanho pequeno como adorno de edifícios. É bem estranho e provoca destaque.

 

Era uma vez um telemóvel

 

Já lá andávamos há mais de duas horas quando pensamos que seria bom procurar no tripadvisor um restaurante para almoçar. Coloco as mãos nos bolsos das calças, nada. Revisto o e casaco e a mochila, nada. Ficamos estarrecidos e retrocedemos no tempo e espaço, todo o caminho até ali, sem sair do sítio. Era impossível encontrar o telemóvel no meio de tanta gente.  Já tínhamos entrado e saído de vários espaços e sentado para contemplar os budas ou até mesmo para tirar o calçado inúmeras vezes. Era muito difícil.

O telemóvel tinha simplesmente todos os documentos, reserva das viagens e acesso às minhas contas pessoais. Tinha em uso um cartão tailandês e não fazia ideia do número para poder ligar-lhe, mas estava certo de não ter desligado os dados moveis. Isso podia valer muito pouco se alguém me tivesse roubado e desligado o equipamento.

Resolvemos arriscar uma chamada pelo Messenger. Liguei do telemóvel da Ju para a minha conta e tocou até ao fim sem qualquer resposta. Já estávamos preparados para revistar aquele espaço enorme a “pente fino”, mas a intuição falou mais alto e fiz uma nova tentativa. Após alguns segundos ouço uma voz do outro lado. Era claramente uma mulher Tailandesa. Concluí isso porque todas as frases que ela pronunciava acabavam com um som agudo, parecido com “Khá”, como já tinha percebido ser característico. Confesso que não percebi nada do que ela disse, como seria evidente. A mulher claramente não dominava Inglês, mas lá pelo meio compreendi a palavra “water” e fez-se luz! Antes da revista pelos militares na entrada, fomos comprar uma água àquela espécie de café e certamente tinha-o deixado lá esquecido.

Expliquei a um militar o sucedido e ele deixou-me sair, colocando-me um carimbo na mão para permitir uma reentrada.

Lá estava ele, na mão da senhora, sorridente, que mesmo sem perceber uma única palavra do que estava escrito no telemóvel atendeu e conseguiu que eu percebesse onde o tinha deixado! Um verdadeiro “Kop Khun Krap” e uma vénia para esta mulher!

 

Ir a Roma e não ver o Papa é como ir à Tailândia e …

 

Pouco tempo mais estivemos ali. A aplicação indicou-nos um restaurante junto à saída e apesar das várias opções fomos bem recomendados. Com pratos tradicionais a preços acessíveis e uma aparência castiça, destacava-se a idade avançada do espaço apesar do bom estado de conservação. Era somente uma sala virada para rua, sem janelas laterais e oito mesas, em que os funcionários saiam pela parte de trás, bastante escura, para uma cozinha que não víamos nem sitiamos o cheiro. A comida à base de arroz e gambas era deliciosa e a o chá tailandês a acompanhar era fenomenal.

A parte da tarde foi de visita ao Wat Pho, que ficava mesmo próximo. Estes são sem dúvida os dois espaços obrigatórios de visita a Bangkok, mas na nossa opinião o melhor ficou para a tarde.

 

Uma curiosidade: Os turistas na Tailândia devem beber somente água engarrafada para evitar contaminações. A pensar nisso a organização do Wat Pho teve a ideia original de o bilhete de entrada incluir uma senha para uma garrafa de água grátis. Debaixo daquele calor abrasador aquela água fresca vinha mesmo a calhar.

 

O Wat Pho é o templo dos templos. Aquele que apesar de não ser tão incrível pelo exterior, esconde dentro o maior buda de todos. Falamos do Buda deitado, com 46m de comprimento e 15m de altura. Estando dentro de um único edifício é por isso difícil fotografa-lo todo numa fotografia. O edifício tem portas abertas para o exterior ao longo dos 46m de distância e os turistas amontoam-se para conseguirem melhores selfies. Uma verdadeira loucura. Este é sem dúvida o buda que menos contemplação e harmonia possibilita, mas merece a visita.

 

… não fazer uma massagem

 

Ainda confinado com este espaço existe uma escola tradicional de massagem tailandesa, onde dizem estar a origem desta tradicional massagem. Embora a Ju se negasse por completo a esta prática, devido às histórias de massagem tailandesas com outros propósitos, não resistiu e alistamo-nos para receber este tratamento semidivino.

Tiramos os sapatos e seguimos os massagistas até duas camas próximas à janela. Com toda a amabilidade colocaram os nossos pertences numa espécie de baú enquanto nos deitávamos, com roupa vestida, na posição inicial do tratamento.

Ali estivemos mais de meia hora, sendo eu massajado por um homem e ela por uma mulher. As nossas camas eram encostadas, mas nunca conseguíamos ver a cara um do outro porque os movimentos da técnica de massagem eram sincronizados. Eramos massajados com rigor e precisão e sentimos o som de todos os ossos do corpo, desde os dedos dos pés até à cabeça. A coluna gingou para todos os lados e o pescoço perdeu quase toda a tensão.

A massagem não provoca dor significante e deixa marcas nítidas de alívio no corpo. Tudo parece mais leve e mais relaxante. Bendita massagem tailandesa que só de imaginar nos consegue relaxar o pensamento! Para finalizar fomos ainda brindados com um chá tradicional frio, servido num copo plástico com palhinha, que nos acompanhou ao longo da caminhada seguinte.

 

Chao Phraya é uma rio-estrada

 

Imergidos em mercados debaixo de edifícios, de ambiente aparente duvidoso, por entre o cotidiano citadino, passávamos ao largo de tendas repletas de comércio. Se por aquelas bandas houvesse uma coisa chamada ASAE o país simplesmente parava. Ali floria o motor da economia em bancas de roupa, fruta, sedas, comida, merchandising e artesanato, sem que ninguém reparasse na higiene e limpeza. E nós apreciamos essa imagem de marca até chegar ao cais das barcas Tha Tien, que ficava na parte de trás do mercado e não era de fácil visibilidade.

Compramos os ingressos por poucos cêntimos e aguardamos o barco. Começamos a travessia do rio Chao Phraya e chegamos à outra margem em poucos minutos. Pelo meio houve o tempo de apreciar a panorâmica de Bangkok, ver que o rio era mesmo castanho e descobrir que na água o fluxo era tão caótico como nas rodovias.

Do outro lado o Wat Arun. Um monumento budista, com o formato idêntico a pirâmide, predominante cinza e branco, de vários metros de altitude, onde dizem ser possível ver refletido um dos melhores por-do-sol do mundo. Chegamos bem a tempo, conforme previsto, mas o sol resolveu fazer greve.

 

Desejos são desejos

 

Depois de sair do barco, percorremos a zona do cais e disfrutamos a área envolvente do magestoso Wat Arun. Vimos um grupo de budistas muito jovens sentados numa esplanada e comentámos que certamente estariam na idade em que é obrigatório ser monge. Foi por essa altura que ela reparou numa coisa extraordinária. Eles estavam a comer batatas fritas. Se há pessoa que evita ao máximo comer essa iguaria é ela, mas ali ela só conseguiu fixar o olhar nas batatas e lá fomos matar os desejos. Um pires de batatas, com Ketshup, e duas colas fizeram maravilhas e deixaram-nos saciados por sentir um sabor mais familiar. Coisas simples!

Apreciamos o cair da noite, mesmo com o céu carregado de nuvens, enquanto esperávamos um novo barco. Não demorou muito até o vermos atracar. Na Parte de trás vinha um jovem habilidoso que lançava uma corda à distância e encostava o barco ao cais. Depois conferia e auxiliava a entrada de passageiros. Em poucos segundos fazia o processo inverso e o barco seguia. Claramente aquele não era um barco turista, mais parecia comum autocarro de passageiros habituais.

Desta feita a viagem era um pouco mais longa e cerca de quatro apeadeiros à frente chegamos à saída que nos deixava próximos de china town.

Entrei num parque de estacionamento privado e em local escondido aproveitei para tirar aquelas calças azuis que já me ofuscavam os olhos. Percorremos toda a china town com a sensação que aquela rua era semelhante a Times New Square, mesmo sem nunca lá ter ido. Era uma rua larga, com quatro faixas, completamente lotada. Era também um passeio cheio de comércio que percorria a avenida sem qualquer intervalo. Os edifícios altos cheios de luz e decorados com painéis publicitários de grandes empresas. Sentíamos um cheiro intenso a comida, que ia variando à medida que íamos andado. Talvez oitenta por cento não fosse do nosso agrado, mas não provocava enjoo. Misturava-se ainda o fumo, principalmente dos autocarros velhos, que faziam uma nuvem de fumo negro e gás toxico, capaz de nos confundir o olfato. E assim fomos até ao portão de china gate.

 

MBK = 70x7

 

Negociamos um táxi que nos deixou mesmo à porta do centro comercial mais famoso de Bangkok. Ainda na rua, experimentamos pela primeira vez uma espetada. Parecia bem, sabia mal. Provamos outro prato, era vistoso, mas o sabor era fraco. Felizmente havia fruta e sumos naturais porque tudo o resto não era do nosso agrado.

MBK tem muitos pisos. E cada piso é dedicado a um tema. Um conceito semelhante ao El Corte Inglês, mas muito maior. O piso da tecnologia era composto por lojas de grandes marcas e também centenas de pequenas superfícies em minicontentores. Queríamos comprar dois cartões micro SD, com bastante armazenamento e rapidez e, apesar de aparentemente haver demasiadas opções de escolha, foi preciso muito tempo para encontrar. A maioria das lojas vendia produtos falsificados e apenas a gama mais básica dos cartões micro SD. Foi difícil, mas acabamos por encontrar um excelente negócio e com isso ainda trouxemos um Huawey Y9 2018, por cerca de 150€, sendo que esse modelo não saiu em Portugal e pelo que vi na altura o preço deveria rondar os 250€. Foi uma aventura excecional e o fator negociação, que não acontece nos nossos shoppings, torna tudo especial.

Estivemos até ao fim da noite a ver montras e a apreciar aquela infinidade de opções, capazes de fazer delicias de caçadores de promoções, até nos perdermos num dos pisos dedicado ao vestuário feminino que mais parecia uma feira.

Recomendamos este programa delicioso, de visita obrigatória para quem quiser comprar algo a preços mais apetecíveis.

 

É claro que chegamos ao hotel de Tuk Tuk, mas não sem antes passar no Mccdonald’s e matar a fome.

 

Um dia repleto de emoções, que agora descrito parece ocupar mais de vinte e quatro horas, mas que na verdade passou muito rápido. Foi o nosso último em Bangkok antes de voar para Chiang Mai!



Vens connosco até ao norte da Tailândia no próximo post?

 

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