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Passear Contigo, Amar e Ser Feliz

CAP III - Chiang Mai - três ponto um

01.04.19 | André Maria

Cidade ou vila gigante?


Duas horas de voo, com o sol a bater na janela. Ao longo dos cerca de setecentos quilómetros que separam a capital da segunda maior cidade do país, atravessamos muitos cultivos, muitas zonas verdes, muitos riachos, com o avião da Thai Smile sempre a mais de vinte pés de altitude. Quando por fim chegamos ao norte do país percebemos que entramos noutro ambiente. Apesar de ser uma cidade bem grande, Chaing Mai tem um especto menos citadino. Não tem os arranha céus de Bangkok, muito menos a azáfama, e conseguem-se ver montanhas bem próximas. A mais visitada é o Doi Suthep, onde é possível ter uma vista abrangente de todo o território e a mais alta, embora um pouco mais afastada, é o Doi Inthannon, com mais de mil e oitocentos metros de altitude. Chiang Mai está por isso próxima da natureza, em contacto com a Tailândia real e é um dos motivos de não constar em alguns dos roteiros turísticos mais vendidos.

 

O aeroporto era bem pequenino. Mal cruzamos a porta de saída, com o som das rodas das malas já cansadas, fomos interpelados por um taxista. Ali não podia ser diferente. Mesmo estando com a sensação que estávamos em outro país a mentalidade era a mesma, o clima era o mesmo, o cheiro não era igual, mas o sorriso permanecia. A conversa foi breve e levou-nos ao banco de trás de um jipe cinzento, moderno, com o ar condicionado no máximo. Aquilo não era bem um táxi, mais parecia um carro da uber, mas fosse o que fosse levou-nos ao destino por muito pouco dinheiro. Da janela olhávamos a estrada e confirmávamos a pesquisa: Chiang Mai era uma cidade em forma de vila gigante.

 

Quando a fome não quer apertar


Paramos à porta do Mhonsa Hotel, a poucos metros da cidade velha. O hotel estava bem localizado, tinha look bem moderno, com uma fachada de três andares, repleta de janelas e o nome do hotel pintado de amarelo, sob uma placa de madeira bastante grande. Ainda era cedo para o check-in mas fomos amavelmente bem recebidos e autorizados a deixar os nossos pertences na receção, até ser possível ir para o quarto.

 

Era hora de almoço e o estâmago receava mostrar a fome. Se quando sabes que vais comer algo bom a fome parece que te invade os olhos e o pensamento, o contrário acontece quando tens medo do que virá. Com o tripadvisor sempre à mão procuramos o local que mostrasse os pratos mais apelativos e que ficasse mais próximo.

 

Foram precisos poucos passos para saltar à vista a primeira diferença. A comida de rua que invadia Bangkok não estava tão representada por aquelas bandas. Haviam por isso inúmeras opções de restaurantes.

Subimos o passeio e olhamos o caudal de água que nos colocava do lado de fora da cidade velha. A cidade velha é coração de Chiang Mai. Tem a forma de um quadrado e está rodeada de água, sendo por isso obrigatório atravessar uma das várias pontes, como cerca de vinte metros de comprimento. Neste epicentro estão localizados os principais templos da cidade.  

 

Bastaram duzentos metros para encontrar o La Petit. Um restaurante tailandês em forma de garagem, com pratos tailandeses. Não havia qualquer fachada exterior, para além do alumínio corrido a cima que certamente durante a noite fechava o espaço. Com cerca de dez mesas, paredes brancas, dezenas de quadros na parede, ventoinhas a trabalhar incansavelmente, com um frigorifico ao fundo e ao lado o acesso provável para a cozinha. Apenas uma mesa estava ocupada e nós ocupamos outra e fomos olhando os menus.

Acabamos saciados com um café fraco, como todos os outros, e com a fome desfeita. Ali comemos bem. Talvez o local onde mais gostamos de comer em todo o país. Foi somente um shake de ananás feito pelos deuses, enquanto as fadas cozinharam um arroz de vegetais e gambas para ela. Para mim saltearam carne de porco com vegetais, de todas as cores, e adicionaram um molho agridoce, suave, de tom avermelhado e saborosamente inesquecível.

 

Doi Suthep

 

O objetivo era visitar Doi Suthep ainda naquela tarde. Rapidamente percebemos que ali os táxis deram lugar aos songthaew. Se um táxi tem a mesma forma em qualquer país do mundo, estes songthaew só existem no mundo oriental. Falamos de uma espécie de carrinha pick-up vermelha com a parte da carga adaptada. Foram colocados dois bancos verdes, um de cada lado, com capacidade para quatro pessoas, cada, e uma cobertura. Nos songthaew não existe porta traseira e ainda dispõem de um apoio junto ao para-choques onde é possível viajar, tal como fazem os funcionários da recolha do lixo no nosso país. Funcionam como táxis, mas as viagens são partilhadas. Rumam a qualquer ponto da cidade e se quiseres também te levam para algumas atrações fora dela. Nesse caso, levam-te para uma paragem que serve de ponto de partida para esse destino específico. Irás aguardar que cheguem outras pessoas para preencherem todos os lugares. Ou então, tens sempre a possibilidade de pagar esses lugares vazios e evitar a espera. Viajar neste transporte é muito barato, podendo custar cerca de oitenta cêntimos até dois euros por pessoa.

No nosso caso, com cinco euros compramos a viagem de trinta quilómetros, considerando ida e volta, e a entrada no templo. O condutor da carrinha vermelha esperou ainda durante duas horas, para que nós e um grupo de quatros chineses, que viajaram connosco, tivéssemos tempo para conhecer o local.

 

Trezentos degraus separavam-nos do topo. Na base, onde estávamos, haviam imensos mercados de produtos artesanais, mas apenas nos focamos nas cabeças das serpentes de Naga que assinalavam o início da subida. Era uma escadaria bastante ingreme, por entre duas caudas verde de serpentes que demarcavam o percurso da vegetação envolvente. Diz a lenda que foi Naga quem protegeu buda inúmeras vezes ao longo da sua vida e por isso ali estava retratada.

Se a subida já parecia tão magnifica o que dizer do que encontramos lá em cima? Um recinto plano, com vários edifico sagrados em volta e uma estupa no seu centro, que é uma espécie de pirâmide dourada, com ornamentos em ouro. Aquele local é de uma tranquilidade incrível. Retiramos inúmeras vezes os sapatos para entrar em cada um dos templos anexos, sentamos para apreciar os budas e encontramos a paz. O cheiro a incenso espalhava-se por toda a parte e ouviam-se ainda sinos esporadicamente. Haviam vários sinos, que devem ser tocados por quem deseja a bênção e sorte, e não resistimos a que um se fizesse ouvir por nossa ação.

 

Na parte de trás lá estava a famosa varanda com vista privilegiada sobre a cidade e toda a floresta envolvente. Enquanto dezenas de turistas apreciavam a landscape outros viravam costas e tentavam uma selfie que os envolvesse naquele quadro. Era definitivamente um local de eleição e estávamos rendidos. A paisagem, os ornamentos dos templos, os budistas em contemplação, o ressoar dos sinos e o ambiente místico. Tudo era encantador. Fomos ainda convidados a assinar um tecido dourado, que segundo nos disseram iria servir para cobrir o pagoda nas celebrações e assim obteríamos dele a bênção e a realização dos nossos desejos.

 

Por um sorriso recebes

 

Foi por pouco que não perdemos o transporte de regresso. Os chineses pareciam pouco empolgados com o local e já esperavam impacientemente por nós. Depressa descemos a montanha e voltamos à cidade. Ainda eram cerca de cinco da tarde e tínhamos uma hora de sol, que aproveitamos para gastar na visita ao Wat Chedi Luang.

Com uma base quadrada, uma escadaria ao centro que saía de cada um dos quatros lados, alinhada com outras quatro portas no cimo. Assim se formava em forma de base de pirâmide, com uma construção que parecia em ruínas assente no topo.

Apreciamos um belo por do sol e rimos com a inscrição presente em avisos em toda a parte do templo: “Proibidas fotografias de casamento”.

 

Apanhamos um tuk tuk que nos levou ao hotel. Após colocarmos as malas no quarto e tomarmos um bom banho fomos à procura do “Cooking Love”. Um restaurante tailandês muito bem recomendado pelo Pedro e pela Catarina. O tuk tuk conhecia as ruas de cor e a alta velocidade percorreu todas as ruelas e rapidamente nos deixou à porta. Acolhidos por um simpático funcionário, que nos acompanhou até à mesa, confiamos na sorte e deixamos ao seu critério a escolha dos pratos. Sorte essa que nos tinha visitado ao almoço e de quem iriamos duvidar nos minutos seguintes.

A mim calhou-me uma espécie de bife, meio ensopado, acompanhado de algo amarelo bastante crocante que era simplesmente intragável. A ela, porém, não calhou melhor sorte. Algo semelhante a uma sopa de marisco cheia de coentros. Aquele tipo de coisas que adoras ou simplesmente odeias. E esse era o nosso caso. Fomos apreciando o sumo natural de laranja e maracujá, absolutamente encantador, enquanto o funcionário simpático nos topava. Não demorou muito até que ele se fizesse acompanhar da dona do espaço e nos questionar sobre a nossa falta de apetite. Eles não queriam clientes insatisfeitos. Não, não nos colocaram na rua. Quiseram sim que saíssemos satisfeitos e com o sorriso que eles tanto valorizam. Cerca de dez minutos depois chegaram com outro prato para experimentarmos, mas desta vez por conta da casa. Não tínhamos pedido absolutamente nada e eles ofereceram de livre vontade. Impossível seria não ficar encantado e apaixonado por este povo tão encantador. Fomos brindados com uma metade de ananás, que servia de travessa, onde vinha um arroz de gambas e vegetais delicioso. Saboreamos e quase lambemos os dedos. Não fosse aquela atitude e teríamos saído dali desejando nunca mais voltar e acabamos por guardar uma excelente experiência debaixo de uma sorridente memória.

 

Por um sorriso pagas

 

Usamos de novo um tuk tuk até ao mercado noturno. E que mercado lindo é este Night Bazar! Uma área enorme cheia de opções e cheia de vida. Música por toda a parte, negócio a correr a cada metro linear, e luz, muita luz! Este mercado é o maior da cidade e abre todas as noites de segunda a sábado e ao domingo dá lugar ao Sunday Market que não tivemos hipótese de visitar.

Caminhar ao longo das ruas e apreciar tudo o que é vendável é saboroso, mas resistir a gastar algum dinheiro é impossível. Compramos algumas t-shirts e um elefante pintado à mão. Aqui sentimos que o poder negocial é menor do que em Bangkok, porque as coisas estão mais próximas do preço justo, mas é sempre possível conseguir menos vinte ou trinta porcento. Ao comprar ainda ganhas. É verdade. Ganhas um sorriso do tamanho do mundo e a sensação de que fizeste aquela família ganhar o dia. Pelo menos foi isso que sentimos ao comprar o elefante das mãos da sua pintora que nos pediu uma fotografia para que não esquecesse quem levou um fruto da sua arte para o outro lado do mundo.

 

O corpo estava cansado, contente, animado, satisfeito e contaminado pelo espirito. Partilhamos um songthaew até ao hotel com dois americanos que nos contaram histórias das doze vezes que já tinham estado naquela cidade, em outros tantos anos. Todos os anos vão recarregar energias na Tailândia e já não vão a outro lado senão Chiang Mai.

 

 

Uma excelente conversa que apenas foi superada pelo conforto da cama que nos chamava!

 

 

Este foi o nosso primeiro dia em Chiang Mai, ficas connosco até ao dia seguinte?